"Antes de mudar o mundo, mudar a gente. Ajuda pra caramba..." (Renato Russo)

terça-feira, 20 de abril de 2010

::: O ANTES DO DEPOIS :::

Bastou uma ligação. Um toque. Uma verdade dolorosa. Um incidente. Um acidente. O calafrio da morte que não matou, ao contrário, ressuscitou dois corações.


Retalhados, porém intactos é um belo conto escrito por Roberta Simoni, do Janela de Cima. O trecho sobrescrito é o parágrafo culminante de uma história, breve, densa, enigmática e perturbadora que você pode (na verdade deve, vale a pena) conferir aqui.

Eu gostei tanto que, na época eu implorei sugeri que ela continuasse a história. Mais ainda: que ela escrevesse seu início. Eu precisava saber como aqueles dois se conheceram, como foi sua relação, porque terminou...Enfim, não dava pra ficar só naquele telefonema!

Sua resposta: porque você não escreve?

Por uma série de idas e vindas desde então, acabamos não publicando e o primeiro encontro de Nando e Clara acabou ficando “na geladeira”. Até agora.

Retalhados, porém intactos – Início

Nando colocou o fone no gancho e um vento suave correu pelos seus pensamentos até formar um turbilhão a trazer lembranças antigas. Não lembrava a última vez que aquele dia lhe vinha à mente desde a promessa. Mas agora lhe veio implacável, aos borbotões, não poupando detalhes que ele já não sabia se faziam parte do passado ou da sua imaginação sobre o mesmo.

A música daquela boate (ou aquilo que insistiam em chamar de música) voltava, depois de anos, a ecoar em seus ouvidos. Como naquele dia, pareciam que iam explodir o seu cérebro, ou o que havia lhe sobrado à cabeça depois de tudo que havia acontecido.

É verdade que qualquer um diria que aquilo foi inventado. Aliás, o próprio Nando ainda se questionava se havia realmente acontecido daquela maneira...

- Ei, moça, deixou cair seu porta-níqueis. – era difícil não ser tão curto quando se tinha de gritar no ouvido de uma mulher para ser ouvido. Será que conseguiria se acostumar a esta vida novamente? Nando não queria pensar sobre isso.

- Obrigada. Mas pra falar a verdade eu fiz de propósito. Já vi que dançar olhando pra você não é suficiente pra te chamar atenção - Sorriso nos lábios de gloss.
Nando se aproximou tentando fazer com que a moça repetisse o que havia dito.

- Clara.

- Oi?

- Meu nome...eu me chamo Clara – Sorriso.

- Prazer, Clara. Me chamo Nando. – Timidez.

Aperto de mão. Dois beijos. Nervosismo. Diversão.

- Você não tem cara de Nando.

- É?

- Geralmente ‘Nandos’ são cafajestes...

- Então quer dizer que não sou cafajeste?

- Não disse isso. Talvez seja o maior deles!

Um sorriso sem graça de quem não sabia como conduzir o diálogo e Nando já se preparava para perguntar se a garota aceitaria uma bebida – ‘uma boa maneira de desviar a conversa’, na cabeça do rapaz.

- Conheço um homem que também não sabe lidar com mulheres que tomam a iniciativa...A sua ex tomava a iniciativa?

Novamente Nando fez que não havia entendido a pergunta. No que foi interrompido:

- Você entendeu a pergunta. É só dizer ‘sim’...ou ‘não’.

Calor.

- Não. Quer dizer...comigo ela se mostr...

Clara pareceu voltar seu interesse para a música e comentou qualquer coisa com uma garota do lado. Nando sem entender:

- Você me perguntou! - Nando alterou um pouco a voz sem perceber que a música não ficara mais alta.

- Eu sei. Perguntei se “sim” ou “não” - Ironia.

Agora Nando precisava realmente tomar um drink:

- Você aceita uma...

- Bebida?

- Sim. Aceita?

- Se eu aceitar não irá me levar pra cama essa noite, Nando.

- E quem disse que...

- Que homem oferece bebida pra uma desconhecida sem o desejo íntimo de querer levá-la pra cama?

Riram.

- Não era o que eu estava pensando. – Nando quase sincero.

- Talvez seja mesmo o maior...

- Maior o que?

- Maior dos Cafajestes.

Mais risadas. Silêncio. Pensamentos. Coragem.

Nando sentiu algo vivo dentro de si. Algo quente e ao mesmo tempo fresco. Como despertar em uma manhã de Sol em frente à praia. Sem perceber estava sorrindo. Com a boca e com os olhos.

Clara o olhava. Tentava decifrar aquele rapaz.

Havia esbarrado com ele duas ou três vezes antes. Não fazia seu tipo. O fato de ser uma mulher segura não a impulsionava a tripudiar sobre os pouco ousados. Gostava de jogar alto. De ter com os seguros. Com os cafajestes. Como era bom perceber que a maioria dos homens, por mais ‘rodados’ que fossem, não se acostumavam a uma mulher decidida. Mal sabiam eles que as decididas também choravam, menstruavam e queriam destruir espelhos por vezes. Lidar com garotos tímidos jamais lhe garantia o sabor dessa delícia. Não sabia dizer ao certo o que havia com o Nando. Talvez fosse o nome. Ou o seu potencial inexplorado.

- Aceito – Sorrindo.

Sem dizer nada, ele retribuiu o sorriso e foi buscar as bebidas. Clara encarou a atitude com curiosidade, mas se ficou desconsertada conseguiu disfarçar muito bem.

- Aqui está – Nando como uma rocha molhada, sólido, escorregadio – Um brinde à noite de amanhã e às outras depois dela – Sorriso. Malícia.

- Um brinde à noite de amanhã. – Clara não sabia se o rapaz não havia reparado ou se não deu importância ao que levava consigo.

A aliança em seu dedo.

Brindaram.

Como não poderia deixar de ser, dedico este post a Roberta Simoni (que pra mim sempre será Beta). Sei que a distância só existe para mentes limitadas, mas isso não me impede de ter saudade de sua presença.

Em tempo: hoje, dia 20/04 é um dia especial. Fazem exatamente dois anos que ganhei na loteria num jogo que começou no Orkut, continuou no MSN e, se depender de mim, irá terminar daqui a muitos anos, quando eu já estiver velhinho e já não conseguir mais dar conta do recado.  E porque muito da minha força para atravessar por esses momentos de interpéries depende dela que eu venho tornar público o quanto eu lhe sou grato por tê-la ao meu lado. Eu amo você Tatiana Bello! Obrigado por tudo!

Até Breve

I.A.

Edit: o nome do título original é "Retalhados, porém intactos" e não "Retalhos". Peço sinceras desculpas pelo vacilo, Beta. Só espero não haver necessidade de ser retalhado por isso heheheheh

9 Comentários:

Luciana P. disse...

Que bela história, Igor, todos sabemos que tudo tem um início, e com os romances não seria diferente. Mesmo na ficção, queremos entender, esmiuçar, trocar um miúdos, nos envolver nas emoções alheias, pois talvez delas, tiramos as nossas próprias.
Lindo post!
Adorei!

Beijos!

PS: Entro logo em contato para darmos início ao novo post em conjunto, ok?!

Beta disse...

Iguete,

Obrigada, pela dedicatória, viu? Sem dúvidas não há distância geográfica nem temporal que nos afaste.

Já comentei sobre o seu texto antes (por e-mail) e volto a dizer aqui: ficou muito bacana!

Lembra daquele projeto que te falei meses atrás? Sobre essa estória ser dividida por capítulos e contada por vários escritores? Então... vai sair em breve.

O Guilherme Tensol (escritor fooooda, que amo!) está responsável pelo próximo capítulo.

Quero que você escreva um dos capítulos, ainda que -provavelmente - não seja fiel ao texto que você fez aqui, porque o seu texto vai depender da linha que o escritor antecedente seguir, e assim vai...

Mas, é um projeto muito legal. Se anima? Esse texto aqui já serve como um excelente exercício! E o capítulo que for de sua respinsabilidade será um desafio delicioso, garanto.

E antes de me despedir tenho duas coisas pra falar contigo: a primeira é que gostei de ver que você voltou a escrever e pôs "ordem no caos". Fico de bico contigo quando passa tanto tempo sem postar. Assim eu gosto!

A segunda: cheguei na nossa terrinha hoje e quero muito fazer uma visita à tia Cristina. Como ela tá? Melhorou? Mamãe tá me cobrando notícias dela, e eu também quero muito tê-las, e suas também, é claro. Se puder, me dá uma ligada? Marcamos o melhor dia/horário.

Um beijo pra você, amigo querido.

Beta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Beta disse...

Em tempo: uma correçãozinha básica...

O nome do conto é "Retalhados, porém intactos!" ;)

Beijoca.

Beta disse...

Sim, eu de novo...

Por mais dois motivos:

1) esqueci de dar os parabéns pro casal lindo. Beijo pr'ocês, viu? Tati, depois me conte o que ele aprontou na comemoração... ou melhor, conta não, conta não! (hehehe)

2) Respondi seu recado também lá no blog, depois, se puder, olha lá.

Beijooooos.

(e me liga!)

Igor André disse...

Beta, está editado o nome do conto. Falha minha. No mais que bom que está de volta, mocinha! Vou tentar não permanecer muito tempo sem escrever pra você não fazer bico.


E Lú, "nos envolver nas emoções alheias, pois talvez delas, tiramos as nossas próprias.". Concordo muito com isso. Acho que é exatamente por isso que o conto original me despertou tanto.

Aguardo o contato!!!

Beijos às duas

jefhcardoso disse...

Olá Igor! Esta semana estou divulgando uma “nova” postagem. Trata-se de um conto; que na verdade vem a ser uma reedição de meu blog. Sua postagem original ocorreu em 13.02.09; sendo esta a minha terceira postagem no blog. Naquela ocasião este texto não recebeu nenhum comentário. O texto é “O Sr. e o Dr.”. Espero que você, tendo um tempinho, o aprecie.
Um grande abraço, minha gratidão antecipada!

Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com

Luciana Santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana Santos disse...

Despertar... essa é a palavra certa!

Senti a mesma coisa... sabe aquela sensação de algo diferente, nostalgia e emoção (se é que isso existe) ao mesmo tempo?

É um texto muito bonito e encantador.

Tem momentos na vida em que passamos por uma espécie de provação. Muitas vezes não entendemos porque certas coisas ocorrem, porque desejamos o que queremos desprezar, amamos o que talvez queremos odiar... e a verdade é que certos mistérios, sentimentos e perguntas jamais terão explicação!

Por hj é só...

Beijos, primo!

Eu?

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